Era um barco de aparência frágil, um minúsculo
ponto no meio do oceano. Quando decidiu soltar amarras e fazer-se à
aventura, riram-se dele. Acharam que não ia resistir ao embate constante
das ondas, aos caprichos das marés, à força seca e por vezes bruta do
vento. Ignorou os velhos do Restelo e partiu. Sabia o que queria e mesmo
sem mapa estava convencido que seria capaz de chegar ao destino.
Navegou meses a fio de olhos postos no horizonte, à procura de ver
terra. E quando finalmente uma trémula linha castanha foi ganhando
nitidez, saltou de euforia. Aportou entusiasmado e começou a explorar
tudo em volta, mas era uma ilhota pequena e despida. Pareceu-lhe
desinteressante e rapidamente se decidiu a seguir viagem.
Partiu sem
hesitações, sem sequer olhar para trás: o que procurava não estava ali.
Recomeçou a sua busca insistente. Nalguns momentos começava a sentir-se
cansado e para recuperar forças deixava-se ficar quieto, de olhos
fechados, sentindo o balanço suave das ondas a acariciá-lo. Voltava ao
leme recuperado, novamente de olhar posto no caminho em frente e seguro
de que chegaria ao destino.
Um dia, quando começava a desanimar, viu
novamente um ponto amarelado tomar forma e ganhou velocidade para se
aproximar da areia fina que lhe enchia os olhos. Entrou numa baía
paradisíaca e sentiu-se em casa. Saltou de euforia, correu às voltas na
praia e só depois de recuperar a calma iniciou a exploração. Descobriu
montanhas com uma vista de cortar a respiração, quedas de água onde se
sentia em paz, florestas luxuriantes, enseadas tranquilas e árvores
carregadas de fruto. Sentiu que seria capaz de ficar ali para sempre.
Durante algum tempo sentia-se feliz. Todos os dias encontrava um novo
local, desvendava um segredo, somava um novo momento de entusiasmo a
tantos que já levava naquela ilha. Vibrava e sentia-se vivo como nunca
antes tinha acontecido.
Mas um dia, inexplicavelmente, começou a
sentir-se cansado da rotina. As paisagens que antes lhe confortavam os
olhos pareciam-lhe subitamente desinteressantes. Por mais que
mergulhasse o fundo das enseadas já pouco de novo tinha para lhe dar.
Sentia-se inquieto e confuso. Crescia o desejo de voltar a partir, mas
tinha medo de não voltar a encontrar um abrigo tão seguro. Tudo lhe
parecia perfeito. Mas então por que não se sentia preenchido e em paz?
De tanto pensar no que havia para descobrir no vasto oceano, acabou por
decidir a fazer-se de novo ao mar. À sua frente haveria mil ilhas como
aquela, se calhar mais perfeitas. Não iria contentar-se com tão pouco
para o resto da vida. Quando começou a afastar-se ainda hesitou e por
momentos doeu-lhe a alma por ver o que deixava para trás. O mar vasto à
sua frente apagou-lhe essa dúvida. Ia prosseguir e fazer novas
descobertas. Ia valer a pena, repetiu para si próprio.
Quando a
tempestade o agitava no mar alto, acontecia-lhe pensar na segurança da
sua ilha e arrepender-se de não ter ficado. Nessas alturas ficava
abatido e sentia-se derrotado pela ambição de querer sempre mais. Fixava
as ondas e o céu cinzento e desejava que o mar o engolisse. Mas depois
de dias à deriva, em que nem tentava aproximar-se do leme e escolher o
rumo, o sol rasgava timidamente as nuvens e pouco a pouco a calma
voltava a reinar à sua volta. E mais uma vez olhava e procurava
entusiasmado, à espera que algo de novo tomasse conta dos seus dias.
Um dia viu e arregalou os olhos com o que via. Era uma formação rochosa
gigantesca, sob a qual uma gruta abria caminho para a praia mais bela
que já tinha visto na vida. Fez uma entrada tranquila e aproximou-se sem
pressas. Iniciou o primeiro de muitos dias de explorações intensas e
apaixonantes. A ilha era completa, com paisagens variadas e recursos que
pareciam infinitos. Ia envelhecer ali. Não tinha dúvidas.
Não
tinha? Não queria acreditar quando pela primeira vez sentiu uma dúvida
apertar-lhe o estômago. Sentiu-se minúsculo e perdido. O que lhe
faltava? Como saber onde queria chegar? Por que razão nada parecia
satisfazê-lo? Seria incapaz de encontrar a sua ilha perfeita, o seu
porto de abrigo?
Tantas perguntas moíam. Chegavam a doer de tão
fundas. Por mais que olhasse para dentro de si não encontrava as
respostas. Tornou-se inevitável partir. Se calhar pertencia ao oceano,
não à terra.
Foi a partida mais difícil e angustiada. Por várias
vezes voltou atrás e quis pisar de novo a terra. O apelo do mar
sobrepôs-se e acabou por se afastar até a ilha já não estar ao alcance
do olhar.
Navegava quase sem rumo, mais frágil que nunca. As imagens
do passado surgiam-lhe a todo o instante, revia as suas ilhas e as
saudades apertavam. Desejava reencontrá-las, voltar a sentir-se feliz.
Era preciso muito esforço para se arrancar da letargia em que as
recordações o deixavam. Olhava insistentemente à sua volta, na esperança
de descobrir alguma das ilhas em que já tinha sido feliz. Em vão.
Quando estava perto do desespero, atirou-se ao mar. Por segundos pensou
deixar-se levar sem oferecer resistência, pediu que um remoinho o
arrastasse para o fundo. Bastou um segundo sem ir à tona para se
arrepender. Nunca desistiria de lutar e procurar. Recuperou o equilíbrio
e viu uma pedra brilhante e azulada brilhar no fundo do mar, mesmo
debaixo dos seus olhos. Não seria fácil alcançá-la, mas só parou quando
conseguiu tê-la na mão. Era uma pedra misteriosa, que parecia
sussurrar-lhe quando a aproximava do ouvido. Sentiu-se maravilhado com a
força que parecia transmitir.
Quando a fixou com mais atenção,
percebeu que tinha os pontos cardeais inscritos e que lhe indicava o
norte. Sorriu, subitamente confortado. Não sabia ainda o que tanto mar
lhe reservava. Não sabia se alguma vez encontraria a ilha perfeita que
lhe acalmasse a agitação interior. Não sabia se voltaria a uma das suas
antigas ilhas, que se calhar eram a meta que procurava. Sabia, isso sim,
que já não andaria à deriva. A pedra azulada ajudava-o a descobrir o
caminho. Por mais que demorasse, o tempo haveria de lhe dar as respostas
certas. Os mistérios do desconhecido já não o assustavam.
Sentido Único
Palavras Mescladas De Sentimento
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
sábado, 2 de janeiro de 2016
Universo Particular
“Um dia hás-de conquistar o universo.”
Sempre que a ouvia dizer isso, tremia. Tinha sonhos enormes, sim. Queria
voar e o universo parecia-lhe a medida perfeita para a sua ambição. Às
vezes acordava cheio de entusiasmo, convencido que era capaz de levar
tudo à frente. Outras vezes desanimava. Pequeno. Perdido. Confuso.
Frágil. Dois em um, indeciso no caminho a seguir.
“Um dia hás-de conquistar o universo.” Fechava os olhos e sempre que ficava em silêncio ouvia. De tanta insistência, decidiu: tinha de tentar. Ia encontrar a fórmula certa. Fechou-se no laboratório e aquele tornou-se o seu maior objetivo. Mal dormia, pouco comia, trabalhava incessantemente. Era uma questão de insistir, acreditava. Rabiscava fórmulas, afinava ingredientes, tomava notas e continuava a planear de forma metódica aquilo que queria.
Às vezes desanimava – eram os dias em que o seu lado mais sombrio dominava e o deixava paralisado. Nessas alturas julgava perder-se. Olhava as notas e pareciam-lhe apenas traços confusos e erráticos. Não conseguia descodificar o seu próprio caminho, trilhado com tanto esforço. A falta de memória chegava a assustá-lo. Era como se um só dia bastasse para perder as aprendizagens de longas semanas.
Cambaleava, tremia, mas recusava-se a cair. Ouvia ainda e sempre a voz dela, acompanhada de um sorriso todo ternura. “Um dia hás-de conquistar o universo.” E voltava a acreditar, de novo recordado de quem era. Força luz ambição trabalho carinho sorriso: amor. Levantava-se renovado e voltava a pegar nos tubos, produtos químicos, cálculos e fórmulas. Trabalhava energicamente, seguro de si.
Até que um dia, quando se julgava perto de desvendar o segredo, perto da meta, à beira de conseguir a chave para conquistar o mundo inteiro, a conjugação errada de componentes causou uma forte explosão. O laboratório desfez-se em cinzas. Raios assustadores rasgaram-lhe o dia. As palavras terminaram: vazio sem fim.
Deixou-se ficar quieto, a sentir cada dor que lhe marcava a pele, os músculos, a vida e a alma. Não soube quanto tempo durou a apatia nem como foi que a luz chegou. Como um pó mágico que as fadas espalham sobre as pessoas – mesmo sobre aquelas que não acreditam. Como um milagre que resgata das cinzas aqueles que se julgam à beira do fim. Como um sorriso maior que a vida, capaz de varrer dúvidas, medos e cobardia. A luz envolveu-o devagar, abraçou-o, limpou-lhe o olhar e varreu pacientemente as sombras, uma por uma. E ele viu, com a clareza que o seu lado mais sombrio nunca tinha deixado ver, que o universo inteiro estava dentro de si.
“Um dia hás-de conquistar o universo.” Fechava os olhos e sempre que ficava em silêncio ouvia. De tanta insistência, decidiu: tinha de tentar. Ia encontrar a fórmula certa. Fechou-se no laboratório e aquele tornou-se o seu maior objetivo. Mal dormia, pouco comia, trabalhava incessantemente. Era uma questão de insistir, acreditava. Rabiscava fórmulas, afinava ingredientes, tomava notas e continuava a planear de forma metódica aquilo que queria.
Às vezes desanimava – eram os dias em que o seu lado mais sombrio dominava e o deixava paralisado. Nessas alturas julgava perder-se. Olhava as notas e pareciam-lhe apenas traços confusos e erráticos. Não conseguia descodificar o seu próprio caminho, trilhado com tanto esforço. A falta de memória chegava a assustá-lo. Era como se um só dia bastasse para perder as aprendizagens de longas semanas.
Cambaleava, tremia, mas recusava-se a cair. Ouvia ainda e sempre a voz dela, acompanhada de um sorriso todo ternura. “Um dia hás-de conquistar o universo.” E voltava a acreditar, de novo recordado de quem era. Força luz ambição trabalho carinho sorriso: amor. Levantava-se renovado e voltava a pegar nos tubos, produtos químicos, cálculos e fórmulas. Trabalhava energicamente, seguro de si.
Até que um dia, quando se julgava perto de desvendar o segredo, perto da meta, à beira de conseguir a chave para conquistar o mundo inteiro, a conjugação errada de componentes causou uma forte explosão. O laboratório desfez-se em cinzas. Raios assustadores rasgaram-lhe o dia. As palavras terminaram: vazio sem fim.
Deixou-se ficar quieto, a sentir cada dor que lhe marcava a pele, os músculos, a vida e a alma. Não soube quanto tempo durou a apatia nem como foi que a luz chegou. Como um pó mágico que as fadas espalham sobre as pessoas – mesmo sobre aquelas que não acreditam. Como um milagre que resgata das cinzas aqueles que se julgam à beira do fim. Como um sorriso maior que a vida, capaz de varrer dúvidas, medos e cobardia. A luz envolveu-o devagar, abraçou-o, limpou-lhe o olhar e varreu pacientemente as sombras, uma por uma. E ele viu, com a clareza que o seu lado mais sombrio nunca tinha deixado ver, que o universo inteiro estava dentro de si.
domingo, 20 de dezembro de 2015
Tinta Invisível
Não sabia quando tinha acontecido, quando foi que se tinha perdido de
si, mas era essa a verdade dolorosa: não tinha memórias de uma parte da
sua vida. Todas as noites, quando se deitava, fechava os olhos e
convocava o passado. Viajava por momentos de que se ia lembrando,
saltava de um para outro a passos de gigante, tentando ganhar a maratona
para chegar ao fim do caminho: abrir a porta para aquele quarto fechado
a sete chaves.
Acordava e nunca se lembrava dos sonhos. Sabia que sonhava, claro que sonhava. Vagueava pela neblina, abria os olhos e tentava a todo o custo segurar as formas vagas que o cercavam a dormir, seguro de que nelas estava uma parte da sua história. Em vão ficava imóvel, preso à cama, tentando obrigar-se a não acordar. O dia entrava-lhe pelos olhos dentro e empurrava-o para fora daquele abrigo de calma.
Os dias corriam agitados. Bebia café, pegava no trabalho, tomava notas ilegíveis em reuniões demoradas e chatas, bebia de novo café, atendia clientes, telefonava ao chefe, novo documento para analisar, um almoço rápido, café, telefone, computador, trabalho e trabalho. Não perdia muito tempo a pensar se era feliz. O que é a felicidade senão um balão que rebenta se tentarmos apertá-lo com muita força?
Saía com os amigos. Viajava. Quando se sentia cansado, pegava no carro e seguia sempre para oeste, até ver o mar. Ficava sentado na areia, a ouvir aquele balanço sem fundo, e a certa altura dava por si a sorrir. Estava pronto para voltar. Às vezes ia sozinho. Outras acompanhado. As voltas da vida são cheias de curvas – tinha desistido de fazer previsões.
Um dia, numa noite como todas as outras, preparou-se para a sua viagem tempo dentro. Era uma noite como tantas – mas não foi uma noite como sempre. Viu, com a clareza de quem revê algo que conhece muito bem, um olhar directo sobre o seu. Amor ternura medo nostalgia sonho aventura ambição querer carinho abraço ser mais sempre. Tudo dentro de um olhar. Conhecia-o. Aquele olhar já tinha sido a sua casa. Com ele a guiá-lo, fixou devagar o seu próprio corpo. E viu. Espantado e quase assustado viu.
Gatafunhos escritos a tinta invisível cobriam cada centímetro da sua pele. Ia lendo e recordava-se: como tinha sido possível esquecer aquelas horas tão felizes? Espreitou entusiasmado cada frase, cada dia, cada pedaço de vida. Percebeu que tinha estado sempre ali, marca suave mas eterna na sua pele. E aquele olhar que reconheceria em qualquer canto do mundo ia guiá-lo de volta. Amor.
Acordava e nunca se lembrava dos sonhos. Sabia que sonhava, claro que sonhava. Vagueava pela neblina, abria os olhos e tentava a todo o custo segurar as formas vagas que o cercavam a dormir, seguro de que nelas estava uma parte da sua história. Em vão ficava imóvel, preso à cama, tentando obrigar-se a não acordar. O dia entrava-lhe pelos olhos dentro e empurrava-o para fora daquele abrigo de calma.
Os dias corriam agitados. Bebia café, pegava no trabalho, tomava notas ilegíveis em reuniões demoradas e chatas, bebia de novo café, atendia clientes, telefonava ao chefe, novo documento para analisar, um almoço rápido, café, telefone, computador, trabalho e trabalho. Não perdia muito tempo a pensar se era feliz. O que é a felicidade senão um balão que rebenta se tentarmos apertá-lo com muita força?
Saía com os amigos. Viajava. Quando se sentia cansado, pegava no carro e seguia sempre para oeste, até ver o mar. Ficava sentado na areia, a ouvir aquele balanço sem fundo, e a certa altura dava por si a sorrir. Estava pronto para voltar. Às vezes ia sozinho. Outras acompanhado. As voltas da vida são cheias de curvas – tinha desistido de fazer previsões.
Um dia, numa noite como todas as outras, preparou-se para a sua viagem tempo dentro. Era uma noite como tantas – mas não foi uma noite como sempre. Viu, com a clareza de quem revê algo que conhece muito bem, um olhar directo sobre o seu. Amor ternura medo nostalgia sonho aventura ambição querer carinho abraço ser mais sempre. Tudo dentro de um olhar. Conhecia-o. Aquele olhar já tinha sido a sua casa. Com ele a guiá-lo, fixou devagar o seu próprio corpo. E viu. Espantado e quase assustado viu.
Gatafunhos escritos a tinta invisível cobriam cada centímetro da sua pele. Ia lendo e recordava-se: como tinha sido possível esquecer aquelas horas tão felizes? Espreitou entusiasmado cada frase, cada dia, cada pedaço de vida. Percebeu que tinha estado sempre ali, marca suave mas eterna na sua pele. E aquele olhar que reconheceria em qualquer canto do mundo ia guiá-lo de volta. Amor.
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
Fora da Vida
Ninguém sabia se tinha nascido assim ou se um azar de percurso o tinha
deixado naquela escuridão: era cego. À primeira vista ninguém diria, tão
bem tinha aprendido a seguir pela vida sem o mínimo sinal de que não
via exactamente o mesmo que todas as pessoas. Usava os sentidos com
redobrado rigor e deixava-se conduzir por eles com toda a segurança. Com
as mãos, o cheiro e a capacidade de identificar a beleza, reconstruía
os rostos que o rodeavam. Com o ouvido apurado detectava perigos,
escolhia caminhos, avançava rapidamente pela vida – mais rapidamente que
qualquer outra pessoa que conhecia.
Tinha a convicção apurada de que, para compensar aquela sua falha, tinha de avançar com redobrado entusiasmo, envolvimento, charme e intuição. Rodeava cada projecto, cada objectivo, cada mulher que o atraía com uma ambição desmedida e a precisão de um felino. No final respirava sempre de satisfação: mais um tiro no alvo. O que os outros viam, ele compensava com os sentidos. Sentia desmedidamente, furiosamente. Consumia-se na excitação da busca e da conquista. Vivia prazeres intensos e acreditava que nessa intensidade era feliz.
Às vezes, no silêncio da noite, parecia ver sombras e inquietava-se. Era como se murmurassem e lhe apontassem erros. Diziam que tinha falhado aqui e ali o caminho certo, que correra por atalhos e estava perdido. Sacudia-as: disparate. A sua intuição era tudo. E que importava se hoje os sentidos o guiassem para um caminho diferente do de ontem? A intensidade dos sentidos bastava. A sofreguidão de beijos e caminhos abertos pelas mãos bastava. Estava tudo ali e não ia deixar que nenhuma sombra o inquietasse.
À força de tanto insistir que era dono do seu próprio caminho – sem interferências, sem opiniões, sem preocupações, sem responsabilidades, sem sacrifícios, sem perdas de tempo com os outros, sem medo do que não via – o seu ego foi crescendo. E quanto mais crescia, mais as sombras o rodeavam à noite. Apontavam-lhe coisas que se recusava a ver. Sorria rodeado com as imagens de conquista, beleza e conforto proporcionado por horas de carícias. Tinha o que queria. Tinha, repetia.
Um dia, inesperadamente, um par de olhos fixou-o insistentemente. Era o olhar de uma mulher pequena, quase minúscula, sem nada suficientemente atractivo para lhe amarrar os sentidos. Mas tinha uma alma tão grande que se elevou até à altura do seu enorme ego –agigantado por milhares de pequenas conquistas – e conseguiu prender-lhe o olhar. Ficaram assim longo tempo. De repente, à força de tanto ser olhado, viu.
À sua volta havia um rasto de destruição. Jardins pisados na sua fúria de conquista imediata, objectos tombados pela busca desenfreada de amor, pessoas feridas que tinha pisado sem ver, nódoas negras no seu próprio corpo que nem tinha sentido na sua ânsia de prazer. Como numa revelação, ouviu tudo o que as sombras lhe diziam à noite e nunca tinha querido entender. Escutou a história de cada passo mal dado, de cada nódoa negra, de cada viragem brusca em que tombou quem não queria.
Viu e percebeu que os caminhos mais coloridos, intensos e realmente cheios de beleza eram os daqueles que, por serem pequenos, conseguiam ter uma grandeza de alma que os elevava acima do chão, com uma leveza que os impedia de pisar o que não merecia ser pisado.
Nesse dia percebeu: não havia um fim para a história. Era o dia de um começo. E agora que via, não deixaria que os sentidos o guiassem para fora da vida.
Tinha a convicção apurada de que, para compensar aquela sua falha, tinha de avançar com redobrado entusiasmo, envolvimento, charme e intuição. Rodeava cada projecto, cada objectivo, cada mulher que o atraía com uma ambição desmedida e a precisão de um felino. No final respirava sempre de satisfação: mais um tiro no alvo. O que os outros viam, ele compensava com os sentidos. Sentia desmedidamente, furiosamente. Consumia-se na excitação da busca e da conquista. Vivia prazeres intensos e acreditava que nessa intensidade era feliz.
Às vezes, no silêncio da noite, parecia ver sombras e inquietava-se. Era como se murmurassem e lhe apontassem erros. Diziam que tinha falhado aqui e ali o caminho certo, que correra por atalhos e estava perdido. Sacudia-as: disparate. A sua intuição era tudo. E que importava se hoje os sentidos o guiassem para um caminho diferente do de ontem? A intensidade dos sentidos bastava. A sofreguidão de beijos e caminhos abertos pelas mãos bastava. Estava tudo ali e não ia deixar que nenhuma sombra o inquietasse.
À força de tanto insistir que era dono do seu próprio caminho – sem interferências, sem opiniões, sem preocupações, sem responsabilidades, sem sacrifícios, sem perdas de tempo com os outros, sem medo do que não via – o seu ego foi crescendo. E quanto mais crescia, mais as sombras o rodeavam à noite. Apontavam-lhe coisas que se recusava a ver. Sorria rodeado com as imagens de conquista, beleza e conforto proporcionado por horas de carícias. Tinha o que queria. Tinha, repetia.
Um dia, inesperadamente, um par de olhos fixou-o insistentemente. Era o olhar de uma mulher pequena, quase minúscula, sem nada suficientemente atractivo para lhe amarrar os sentidos. Mas tinha uma alma tão grande que se elevou até à altura do seu enorme ego –agigantado por milhares de pequenas conquistas – e conseguiu prender-lhe o olhar. Ficaram assim longo tempo. De repente, à força de tanto ser olhado, viu.
À sua volta havia um rasto de destruição. Jardins pisados na sua fúria de conquista imediata, objectos tombados pela busca desenfreada de amor, pessoas feridas que tinha pisado sem ver, nódoas negras no seu próprio corpo que nem tinha sentido na sua ânsia de prazer. Como numa revelação, ouviu tudo o que as sombras lhe diziam à noite e nunca tinha querido entender. Escutou a história de cada passo mal dado, de cada nódoa negra, de cada viragem brusca em que tombou quem não queria.
Viu e percebeu que os caminhos mais coloridos, intensos e realmente cheios de beleza eram os daqueles que, por serem pequenos, conseguiam ter uma grandeza de alma que os elevava acima do chão, com uma leveza que os impedia de pisar o que não merecia ser pisado.
Nesse dia percebeu: não havia um fim para a história. Era o dia de um começo. E agora que via, não deixaria que os sentidos o guiassem para fora da vida.
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Voar
Voar. Era mais que um sonho: uma certeza. Era uma meta, daquelas que se
deseja tanto que se sabe que um dia, nem que seja distante, se chegará
lá. Ele queria voar. E um dia seria capaz, tão certo como dois mais dois
serem quatro – se bem que nem sempre a matemática tem os resultados
certos para a vida. E se não conseguisse? E se afinal não tinha talento
suficiente para voar sozinho? Queria voar. Sabia como voar. Mas
demorava-se com tanta coisa que lhe surgia pelo caminho. Começou a
acreditar que se calhar não era preciso voar. Se calhar ia ser feliz em
terra, sempre em terra. E procurou preencher-se assim, mudar de sonhos.
Sentia-se bem, mas quando fechava os olhos continuava a surgir a mesma imagem. Via-se a voar. Lá no fundo, num lugar escondido dentro de si que não mostrava a ninguém, continuava vivo o sonho de chegar longe, a um destino fabuloso escondido algures para lá dos limites do céu. Foi numa noite em que estava perdido nesse lugar misterioso de si mesmo que ela, a mulher mais infinita que já tinha conhecido, lhe disse com um sorriso: “Para conseguires voar tens de manter um pé na terra e levantar o outro para o céu.” Ele não percebeu. E até se irritou com a firmeza na voz dela. O que queria dizer? Como ousava pensar que o conhecia? Ela nunca tinha entrado no fundo mais fundo de si, esse lugar que era quase um avesso do que se via do lado de fora. Não lhe conhecia os sonhos e os medos. Conselhos… É fácil dar conselhos. Sobretudo confusos como aquele: que é isso de manter um pé na terra e outro no céu?
Amava-a, mas continuava a faltar-lhe o sonho por concretizar. Queria voar. E para isso tinha que arriscar mais, tinha de partir. Viu a sombra que lhe encheu os olhos quando lhe disse que acabara. Mas nem a sombra impediu que se amassem mais que nunca. Nessa noite foram fogo, ar, terra e água. Foram corpos que se misturaram e se deram a beber sem pressa. Foram almas abertas e despojadas de segredos. Viram-se um ao outro como quem se vê pela primeira vez – com a surpresa de quem se conhece e descobre sempre mais para conhecer. Demoraram-se no mais terno abraço, sem nunca se prenderem. E quando ele foi embora ela chorou e voltou a chorar, o vazio na cama fê-la tremer de medo e chorou por ele, porque acreditou que ele iria perder-se na escuridão lá fora.
Concentrado, de olhos postos no céu, ele mediu a altura dos seus sonhos, inspirou o ar ainda carregado do cheiro dela e deixou que esse cheiro a casa o conduzisse em direcção ao céu. Quando se sentiu a flutuar, olhou para trás, para o caminho que tinha feito, e viu. Viu as horas todas vividas com ela. Viu suspiros, sorrisos, viu discussões também. Viu as mãos dela, os olhos, os segredos que tinham trocado. Viu as cores sem nome dos orgasmos, viu as histórias que os dois tinham escrito juntos. Ainda tinha um pé na terra. E estava com o outro no céu.
Lentamente, sem pressas, voltou a descer pelos fios invisíveis das memórias a dois. Aterrou devagar junto dela, que o olhou num misto de surpresa e medo.
- O mundo é maior visto lá de cima. Mas sabes o que é melhor?
- O melhor é saber que depois de cada voo tenho onde voltar.
Sentia-se bem, mas quando fechava os olhos continuava a surgir a mesma imagem. Via-se a voar. Lá no fundo, num lugar escondido dentro de si que não mostrava a ninguém, continuava vivo o sonho de chegar longe, a um destino fabuloso escondido algures para lá dos limites do céu. Foi numa noite em que estava perdido nesse lugar misterioso de si mesmo que ela, a mulher mais infinita que já tinha conhecido, lhe disse com um sorriso: “Para conseguires voar tens de manter um pé na terra e levantar o outro para o céu.” Ele não percebeu. E até se irritou com a firmeza na voz dela. O que queria dizer? Como ousava pensar que o conhecia? Ela nunca tinha entrado no fundo mais fundo de si, esse lugar que era quase um avesso do que se via do lado de fora. Não lhe conhecia os sonhos e os medos. Conselhos… É fácil dar conselhos. Sobretudo confusos como aquele: que é isso de manter um pé na terra e outro no céu?
Amava-a, mas continuava a faltar-lhe o sonho por concretizar. Queria voar. E para isso tinha que arriscar mais, tinha de partir. Viu a sombra que lhe encheu os olhos quando lhe disse que acabara. Mas nem a sombra impediu que se amassem mais que nunca. Nessa noite foram fogo, ar, terra e água. Foram corpos que se misturaram e se deram a beber sem pressa. Foram almas abertas e despojadas de segredos. Viram-se um ao outro como quem se vê pela primeira vez – com a surpresa de quem se conhece e descobre sempre mais para conhecer. Demoraram-se no mais terno abraço, sem nunca se prenderem. E quando ele foi embora ela chorou e voltou a chorar, o vazio na cama fê-la tremer de medo e chorou por ele, porque acreditou que ele iria perder-se na escuridão lá fora.
Concentrado, de olhos postos no céu, ele mediu a altura dos seus sonhos, inspirou o ar ainda carregado do cheiro dela e deixou que esse cheiro a casa o conduzisse em direcção ao céu. Quando se sentiu a flutuar, olhou para trás, para o caminho que tinha feito, e viu. Viu as horas todas vividas com ela. Viu suspiros, sorrisos, viu discussões também. Viu as mãos dela, os olhos, os segredos que tinham trocado. Viu as cores sem nome dos orgasmos, viu as histórias que os dois tinham escrito juntos. Ainda tinha um pé na terra. E estava com o outro no céu.
Lentamente, sem pressas, voltou a descer pelos fios invisíveis das memórias a dois. Aterrou devagar junto dela, que o olhou num misto de surpresa e medo.
- O mundo é maior visto lá de cima. Mas sabes o que é melhor?
- O melhor é saber que depois de cada voo tenho onde voltar.
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Aqui Estou
Aqui estou. Neste sinal repentino de vida, deixando-me cair no desespero
que me afoga a alma. Ironia, sentir borboletas no estômago e
tempestades na mente, acabando com um dilúvio nas retinas por
consequente. Um sufoco nos pulmões como um aperto no peito, um engolir a
seco e mais um rasgar no vício, enfim...O horizonte é todo igual, sem
destino, sem guia, esperando por melhor dia. Disfarçando sorrisos,
forçando piadas, rindo roucamente para não se notar o vazio...silêncio
que agora em mim habita.
terça-feira, 29 de setembro de 2015
O Melhor de Nós
Quem disse que para sermos felizes precisamos obrigatoriamente de
alguém? Enquanto não formos o melhor de nós para nós mesmos, nunca
seremos o melhor para ninguém. Quando finalmente conseguir-mos ver que
sozinhos somos inteiros, e que um final feliz não tem sempre que incluir
outro alguém, que as vezes inclui somente tornarmo-nos na nossa melhor
versão a cada dia, é aí que estaremos prontos para ser dois. Afinal
ninguém quer metades. E depois sim, da o melhor de ti a alguém. Porque
nem de longe nem de perto o nosso final feliz pode resumir-se a alguém a
sanar buracos que só nós devemos preencher.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Sem Agradar a Ninguém
Sabes aquela vontade de largar tudo, de te afastares das pessoas, e
mandar tudo para o ar? É assim que eu estou a querer levar a vida
ultimamente, a afastar-me de tudo o que me irrita, de tudo o que magoa,
de tudo o que me deixa frustrado, e de tudo o que me deixa mal. É
difícil largar a mão de algumas coisas de uma hora para a outra, mas
isso para mim já virou uma necessidade. Às vezes tudo o que quero é
correr para um canto, ficar sozinho por la, sem ter que ouvir as pessoas
a criticarem-me constantemente. É isso que oiço todos os dias, criticas
e mais criticas sobre mim e sobre tudo o que faço. Desgasta tanto que
chega uma hora em que explodes, e dizes a ti mesmo 'chega porra, não
aguento mais...isto tem que mudar agora, se não, não da'. Por isso, a
partir de agora vou manter-me o mais feliz possível, pois sei que é
assim que me detestam ver. E como eu amo irritar, vou ser apenas eu, sem
ter que mudar por ninguém, sem ter que agradar a ninguém. Percebi que o
meu sorriso é a minha arma contra aqueles que me querem ver mal. E que
andar desarmado, nos dias de hoje é uma sentença declarada. Vou viver a
vida como quero, e que acho que devo viver, sem me preocupar com
consequências nem opiniões alheias.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Pessoas-Pela-Metade
Existe um segredo valioso nas entrelinhas do “Antes um inimigo inteiro do que um amigo pela metade.” Claro que nem tudo merece o nosso agradecimento. Pessoas-Pela-Metade,
por exemplo, não merecem a nossa gratidão. Na verdade, dessas devemos
manter uma distância segura. Elas nunca serão completas e sempre
tentarão roubar de outras aquilo que lhes falta. Pessoas-Pela-Metade não
aprenderam a amar, então roubam o amor dos outros, sequestram a auto-estima alheia e querem manter o domínio de tudo. Porque foram
traídas, se apropriam da confiança dos outros, desconfiam de tudo a todo
momento e sempre mantém um véu de mistério pairando sobre as próprias
atitudes que serve para esconder mentiras e omissões. Porque são
inseguras, não caminham em paz e sempre procuram confusões nos ambientes
que frequentam.
Pessoas-Pela-Metade querem a sua paz, a exclusividade do seu amor, querem que sejas posse delas. Elas tiram o teu direito de escolha, sequestram a tua companhia e cegam a tua visão. Se observares bem de perto, vais perceber que a vida lhes fez um pequeno mal e elas mesmas se encarregaram de aumentar o estrago com suas atitudes e escolhas. Ao invés de buscarem a superação, escolheram disseminar a maldade e desconfiança por onde passam. São cépticas e entoam com o peito cheio de ar que o amor só existe em contos de fadas.
Pessoas-Pela-Metade não me preenchem, não merecem metade da minha atenção e muito menos uma gota do meu ódio – merecem a indiferença. Disso elas estão cercadas.
Pessoas-Pela-Metade merecem uma única coisa: um ponto final.
Pessoas-Pela-Metade querem a sua paz, a exclusividade do seu amor, querem que sejas posse delas. Elas tiram o teu direito de escolha, sequestram a tua companhia e cegam a tua visão. Se observares bem de perto, vais perceber que a vida lhes fez um pequeno mal e elas mesmas se encarregaram de aumentar o estrago com suas atitudes e escolhas. Ao invés de buscarem a superação, escolheram disseminar a maldade e desconfiança por onde passam. São cépticas e entoam com o peito cheio de ar que o amor só existe em contos de fadas.
Pessoas-Pela-Metade não me preenchem, não merecem metade da minha atenção e muito menos uma gota do meu ódio – merecem a indiferença. Disso elas estão cercadas.
Pessoas-Pela-Metade merecem uma única coisa: um ponto final.
terça-feira, 5 de maio de 2015
Jornada
Muitas vezes damos importância demais a problemas que não afetam
a nossa vida em nenhum sentido. Ficamos assustados com o que vai
acontecer com o nosso futuro, e esquecemos que nem o passado nem o
futuro importa, apenas o presente. Apesar de todos os problemas, todas
as confusões, nunca deixes o teu presente ser afetado.
Viver é enfrentar um problema atrás do outro. O modo como o encaramos é
que faz toda a diferença. A vida é uma só, não existe passado nem
futuro depois de morremos, é feita apenas de presente. Então vive o hoje
e sê feliz enquanto há tempo pois nada prevalece tanto na vida de um
homem sem direção,
do que uma jornada sem sentido. Citando José
Saramago...''Que não se tenha pressa, mas que não se
perca tempo!''
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